Sexta-feira, Agosto 13, 2004
Este blog mudou se para endereço desconhecido
escrito por Emergência Ramal 123 |
1:51 PM
Comments:
Quarta-feira, Julho 28, 2004
Respostas inteligentes para perguntas cretinas (e que, vira e mexe, alguém acaba fazendo)
colaboração: Antoine Morel
Situação Um: Desabamento de terra, mãe perde dois dos cinco filhos.
Repórter: O que a senhora está sentindo?
Mãe: A gente sempre fica triste, né? Mas deu um certo alívio também. Assim que a gente ficou sabendo da morte dos moleques, sentamos à mesa eu e meu marido: vamos economizar 40% em alimentação, 20% em vestuário e 0,8% em energia elétrica. Provavelmente, descontadas as despesas do enterro, vamos ter superávit de 2% no orçamento familiar. O projetado era déficit de 5% em conta corrente.
Situação Dois: Vésperas da reunião do Copom
Repórter: E então, economista Fulano de Tal, os juros vão cair ou não?
Economista: Eu torço para que os juros se explodam. Separei da minha mulher, que assumiu as dívidas do cartão de crédito. A vagabunda está perdida! Além disso, não sou do governo. Por que você não pergunta ao Meirelles?
Situação Três: Campo de futebol, minutos antes do clássico
Repórter: Como vai ser o jogo?
Craque do time: Uma merda! Fui vendido para o exterior, não vou por o pé em dividida. E se sobrar na minha área, faço gol contra, que essa bosta de time não me paga há 5 meses.
escrito por Emergência Ramal 123 |
4:33 PM
Comments:
Sexta-feira, Julho 16, 2004
Um fechamento muito louco e outras histórias do poder
São quase 1 hora da manhã, madrugada de quinta para a sexta-feira. Mesmo se usasse drogas, aposto que meus olhos não estariam tão vermelhos. E nem que fosse bêbado adolescente, de primeiros porres, minha cabeça estaria doendo tanto.
Meus únicos amigos são aqueles que estão no - raios! - do messenger. Um vem de Valinhos. O outro, do Ipiranga. Claro que não temos nenhuma confissão a trocar, nem grandes planos a fazer. Não queremos mais derrubar um diretor de faculdade. Mas se o do Ipiranga pudesse arrebentar com o sistema de publicação de um certo site de esportes... Conversamos para manter a função fática, simplesmente. Continuar conversando para não perder o jeito, para não balbuciar na frente dos amigos, vizinhos, namorada (que, aliás, insiste em não atender ao celular...). Para não esquecer as palavras, para não esquecer os afetos e desafetos.
Alimentação é coisa de outro mundo. Do mundo da Kraf Foods, para ser mais exato, e de todo o seu império de bolachas de cholocate, sempre as minhas preferidas, claro! as mais fáceis de abrir. Mas na redação, sempre tem alguém que se alimenta de outro jeito. Por exemplo, agora: se eu virar meu pescoço para o lado esquerdo, posso ver dois amigos se deliciando com as maravilhas do sexo pela internet. Agora eu sei por que sexo é a palavra mais procurada na Internet. Um dia eu ainda vou fazer as contas, descobrir quantos jornalistas existem no mundo, quantos fazem plantão e quais são os horários de pico em que se busca... sexo virtual. Daí eu faço um livro. E fechamento será apenas uma passagem garbosa de minha autobiografia escrita pelo Lucas. Aliás, eu ainda explico por que jornalistas são, por definição, eunucos potenciais. Sei lá por que escrevi isso...
escrito por Emergência Ramal 123 |
1:09 AM
Comments:
Quarta-feira, Julho 14, 2004
Como diria Amaury Júnior, a vida é um Flash
Avenida Rebouças, 22h34, noite de terça-feira.
Um cartaz de letras garrafais, em frente a uma boite, anunciava: "Strip Tease com Churrasco foi sucesso total!!! 100 kg de carne durante toda a tarde de domingo!!!"
As perguntas inevitáveis:
- Era strip defumado?
- As dançarinas eram gordas?
- Serviu picanha?
- Quanto era a entrada?
escrito por Emergência Ramal 123 |
4:33 PM
Comments:
Terça-feira, Julho 13, 2004
O homem que se trancou no banheiro
Cansado de uma vida de amarguras, João das Neves queria se suicídar. Mas como o suicídio é coisa de gente sem coragem, e ele, definitivamente, não se achava um homem covarde, optou por uma solução mais amena, que não maculasse sua honra e sua memória. Depois de uma partida de bilhar, descobriu que a solução era se trancar no banheiro. O motivo? Simples. Trancado, aos poucos as pessoas se esqueceriam dele. Logo sobrariam apenas os boatos de que havia se mudado para um país distante, morrido em um acidente de carro ou que havia se casado com uma colega de infância. Para o esquecimento, e avante!
O primeiro ato de João das Neves foi tirar todo o dinheiro acumulado ao longo dos 35 anos em que foi funcionário público. Com ele, reformou o banheiro de sua casa, instalou poltronas reclináveis, colocou TV a cabo. Com uma rede wireless, aplicava o restante em bolsas de valores ao redor do mundo. Também adquiriu aparelhos de ginástica. Não queria engordar. O segundo ato de das Neves, contudo, foi mais ousado. Cimentou a porta do apartamento, diminuiu pela metade o tamanho das janelas e subornou o síndico para que se esquecesse dele. As contas deveriam ser enviadas para seu site na internet.
João das Neves passou, então, a desfrutar de um complexo e delicado micro-mundo destinado a satisfazer seus desejos mais profundos. Largava a rotina da Rego Freitas e os travestis que lhe cantavam todo o dia quando chegava em casa. Não precisava mais dar satisfação ao chefe, nem aos vizinhos, muito menos aos amigos. Deixaria de se entupir por propagandas e outdoors, bárbaros, disputando cada milímetro da retina tão fatigada. Esqueceria as noites passadas de bar em bar, os problemas com carro. Nunca mais faria a barba. Ao mesmo tempo não cairia no clichê de se abandonar a uma casa no campo, ermitão desolado, campo idílico dos hippies ultrapassados. E não correria o risco de se tornar exemplo de vida ideal. Suicidas vivos não devem ser imitados, pensava, entre uma baforada e outra de um charuto cubano, daqueles que nunca havia pensado em consumir.
escrito por Emergência Ramal 123 |
7:37 PM
Comments:
Segunda-feira, Julho 05, 2004
O tempo nunca passou tão rápido. Ao menos para mim. Das duas da tarde às cinco e trinta se passam apenas três horas e meia. É muito pouco; e o dia fica triste de repente. O vento bate no rosto, mas esfria a pele. As mulheres passam de cabeça baixo. O banho quente tem de ser curto e intenso. Tudo escurece, a única vontade que dá é a de ir se embora para debaixo de um lugar quente. O abraço gostoso de uma senhorita de cabelos vermelhos. Menos o cobertor, que faz cada minuto capengar, se arrastar. A não ser quando eu fecho os olhos. Aí eles voam. É hora de acordar. E repetir, aos poucos, uma por vez, quase sempre as mesmas atividades do mesmo jeito. Mas as dezessete e trinta é hora de dar basta. E tentar viver, de uma vez, tudo aquilo a que voluntariamente renuncio um pouco por dia. E andar com os olhos fixos nos olhos de umas três pessoas que valem a pena conversar. Porém, elas andam tão rápido que nunca vão saber se eu valho a pena. Nem eu.
Ontem eu queria segurar o tempo. Pegar cada cena da estrada e guardar numa caixa. Seriam provas de que vivi. Quando viessem me acusar pelas rugas que carrego no rosto, desvairado responderia que a meu favor depõe minha caixa de lembranças. Refutaria qualquer acusação. E ao usufruir sem culpa do cobertor, da lentidão dos minutos, deixaria o promotor sem graça. Da minha debilidade senil lhe cairia no colo a mais profunda das acusações: a de ter passado pela vida como quem nunca nasceu. E, cheio de tiques e manias, continuaria olhando, da janela, pessoas que como eu, um dia viram o dia passar rápido demais. E que morrem de medo de, que ao correr pela vida, lhes pareça que nunca nasceram.
escrito por Emergência Ramal 123 |
7:36 PM
Comments:
Quarta-feira, Junho 30, 2004
Não concordo com tudo. Mas que é foda, é foda...
ELIO GASPARI (Folha de S. Paulo, 30 de junho de 2004)
A linda galera do Brasil
A ida da seleção brasileira de futebol para uma partida de paz no Haiti é um grande acontecimento da política mundial, um dos maiores da história cultural brasileira, triunfo da galera, de um modo de ser, de um Brasil negro, bem-sucedido e amado. Num mundo em que George Bush manda 150 mil homens para o Iraque em nome da prepotência, o Brasil mandará 22 garotos para Porto Príncipe, muitos deles saídos de bairros pobres, todos parecidos com aqueles "brasileños" que a polícia americana caça pelos desertos da fronteira mexicana. Ou com Fio Maravilha ("nós gostamos de você"), o atacante do Flamengo que, aos 59 anos, entregava pizzas em San Francisco.
É dura a vida dos cosmopolitas brasileiros. Fazem tudo para chegar ao andar de cima internacional e, no mínimo, falta-lhes sorte. O "New York Times" publicou um editorial elogiando um discurso do presidente "José Figueiredo". Era João. O banqueiro David Rockefeller chamou o presidente Fernando Collor de Mello de "caçador de marijuana". Era marajá. Bill Clinton chamou FFHH de Henrique. O mesmo Clinton foi bater bola com Pelé na Mangueira e, como contou Jamelão, ficou "feliz como pinto no lixo".
O embarque da seleção para o jogo da paz será um espetáculo de beleza e triunfo do Brasil do andar de baixo. Se a partida puder arrecadar armas, a seleção pentacampeã terá dado ao mundo um dos seus mais bonitos momentos de poesia.
Linda galera a brasileira. Comeu o seu primeiro bispo, mas o pior momento da vida nacional não se deu num campo de batalha. Aconteceu no dia 16 de julho de 1950, quando Gigghia pegou a bola pela direita e fez 2 a 1 para o Uruguai. Bastava o empate. Foi como Pearl Harbor ou a queda de Paris na memória nacional. Os triunfos brasileiros não têm soldados espetando a bandeira na casa dos outros. Eles estão representados em Bellini, Carlos Alberto ou Cafu, erguendo uma taça. É verdade que a primeira Jules Rimet, guardada na CBF, foi roubada e derretida. Isso não fala mal do Brasil, apenas mostra que coisas incríveis acontecem por aqui. Afinal, comeu-se o bispo.
Há países onde as figuras históricas mais lembradas são um general (Bonaparte), um presidente (Washington) ou um tirano (Mao). Pindorama tem Pelé. São 180 milhões de pessoas incapazes de pensar que exista um Brasil sem ele.
No país dessa linda galera, prosperam expressões derrogatórias, tais como "coisa de primeiro mundo". Supõe-se que uma parte da população viva nesta terra por obrigação, contrafeita. Uma clonagem da Beatriz (Débora Evelyn) de "Celebridade". É comum ouvir que "só no Brasil" se faz isso ou aquilo, como se numa terra linda por natureza vivesse um povo amaldiçoado por Deus. O que o Brasil tem de melhor são as suas coisas do outro mundo. As fitas do Bonfim, as baianas da Mangueira, um garoto qualquer correndo atrás de uma bola na rua, um flanelinha oferecendo-se para guardar o carro, um motoqueiro. São eles que vão ao Haiti carregando a alma de um grande povo que sabe jogar futebol. (Alguém acha que, se a Alemanha tivesse ganhado a Copa, sua seleção estaria convidada para jogar em Porto Príncipe?)
Houve governantes que foram a Estocolmo para assistir à premiação de seus conterrâneos com o Nobel. Há também presidentes ou primeiros-ministros que vão almoçar com suas tropas aquarteladas no exterior, como George Bush e Tony Blair no Iraque. Muito bem fará Lula indo ao jogo da seleção brasileira. Descerá no Haiti como representante da galera.
escrito por Emergência Ramal 123 |
7:58 PM
Comments:
Quinta-feira, Junho 24, 2004
Corríamos feitos uns loucos atrás daquela pipa. Agarrei a linha. Mas quando a segurei, estava cheia de cortante. Minha mão sangrou. Fui na casa da vizinha, pedi um pouco de álcool. Ardeu tanto que dor igual só senti quando fiz a barba pela primeira vez e tive de usar loção. É daquelas dores que te fazem balançar a mão - ou o rosto - freneticamente, como se o movimento acelerado, o sangue que se mexe em todas as direções, fosse resolver alguma coisa. Não sei por quê, mas senti uma saudade louca desse dia.
Lembro do vento forte e do dia nublado. Acho que era junho. Naquela época, eu tinha uma roupa para a escola, a roupa para sair - que também era a da missa - e a roupa para a rua, geralmente uma camiseta velha, um pedaço pano puído, que já havia sido traje de gala, roupa para ir na casa da madrinha. Tinha que ser assim, não tinha jeito. A minha rua era de paralelepípedo. E as que não tinham pedras, eram de terra. O bairro era novo. O Jardim dos Eucaliptos ainda tinha eucaliptos. E a gente ia na margem do rio pegar argila. E subia num amontoado de terra que demos o nome de dedo de Deus. E se empurrava, se estranhava, caso um xingasse o outro de bobo.
Depois disso, veio a construção do Escadão na ribanceira. Não sei quantos degraus. E como não tinha esgoto encanado, fizeram, ao lado do escadão, uma galeria de esgoto a céu aberto. E como era mal feito, uma parte escorria para a rua. Depois de velho e cheio de palavras na cabeça, fico pensando como nunca eu nem meus amigos pegamos uma micose, bicho do pé, leptospirose. E hoje, com qualquer friozinho, me encapoto todo. Nem sei mais o que é andar descalço.
Estes dias, depois do banho, vi que meu pé perdeu todo o couro que levei a infância inteira para fazer. E lembro que quando mudei para a casa nova, e vieram os primeiros jogos, e as primeiras pipas no meio do mato, e eu não ia porque tinha medo de cortar o pé, torcia como nunca para ter couro no pé, como o Zé Luiz, o Ricardo, o Rogério. Depois do banho, vi que nunca mais ia poder entrar de novo descalço no meio do mato. E isso me deixou com uma sensação de impotência doida.
escrito por Emergência Ramal 123 |
11:25 PM
Comments:
Sexta-feira, Junho 18, 2004
コンピュータの前の孤独
Alguns funcionários da secretaria de Obras de Tóquio foram demolir um prédio na cidade, algo como o San Vito, aqui em São Paulo. Um treme-treme, esperando um vento mais forte para ser derrubado. A diferença é que o San Vito ainda hoje é habitado. Esse prédio no Japão, até o momento em que os demolidores foram fazer a vistoria definitiva, não tinha mais sinal de gente.
Andaram de andar em andar. Um deles, um dekassegui, sentia calor pela primeira vez desde que chegara ao Japão, em um navio do Loyd. Não era uma alegria. Só o fazia pensar ainda mais na família que deixara no Paraná, em Londrina. Abria porta depois de porta, para ver se não havia vazamento de gás, geladeira, ou qualquer outro material que pudesse fazer do trabalho de rotina uma tragédia.
No 12.º andar, apartamento 1205, a porta estava trancada. Era a única porta fechada, ao menos até o momento. Entreolharam-se o dekassegui e um argentino de ascendência nipônica, os responsáveis pela vistoria entre o 10.º e o 14.º andar. Pensaram que talvez algum vagabundo tivesse se apropriado do andar. Mas como trancara a porta? Um arrepio lhes perpassou a coluna. No Japão o índice de criminalidade não é alto. Não se compara a Burkina Fasso, que segundo a ONU é o país mais tranqüilo do mundo. Mas não se sabe o que um homem costuma fazer quando se sente acuado. E eles não foram até ali para dar boas notícias. Se a pessoa não tinha onde morar e fora para aquele treme-treme, então teria mais uma má-notícia: perderia a casa pela segunda vez. E se fosse um brasileiro? E se fosse um argentino desempregado? A cidade está repleta deles. Alguns não aguentam a rotina de 14 horas de trabalho por dia. Param uma semana, andam de viaduto em viaduto.
Dão três batidas na porta. Fracas. Dão mais três. E mais três. Ninguém responde. Batem mais forte. Gritam. O argentino pede para fazerem silêncio. Vão até a janela do corredor. Dá para ver a cidade inteira lá embaixo. Não dá para ver ninguém. As pessoas correm, desesperadas. Todos os rostos são iguais. O brasileiro pensou nas piadas que faziam em Londrina, sobre a semelhança intrínseca de todos os orientais. Mas no Brasil, as pessoas, embora tão diferentes etnicamente, nas grandes cidades pareciam todas iguais. Lembrou-se de quando era adolescente. Um dia bebera até cair. Os pais ficaram furiosos, não era para aquilo que o haviam educado com tanto esforço. O que lhe fizeram lembrar com mais força daquele dia, contudo, era o efeito da bebida.
Parou pessoa por pessoa que encontrava na rua. Queria saber o nome, o endereço. De quem era parente. Se gostava de chocolate. Porque sabia que nunca mais aquelas pessoas de novo. Passava 10 minutos colado com uma pessoa no ônibus. No outro dia, se pegasse o ônibus no mesmo horário, não a veria de novo. Por isso, ele queria criar laços. Laços com todas as pessoas do mundo. Ou ao menos, com todas as que pudesse encontrar.
Voltaram até a porta. Decidiram arrombar. Deram com o pé na porta. Rapidamente, se esconderam atrás das paredes. Ficaram ali por alguns minutos. Não escutaram barulho nenhum. Entraram. Deitado na cama, um esqueleto. O calendário marcava fevereiro de 1984. O jornal sobre a mesa nem existia mais. Mas trazia nas manchetes notícias do dia 20 de fevereiro de 1984. Há 20 anos, estava morto. Nunca ninguém dera conta do falecido.
Para a história completa, leia aqui
escrito por Emergência Ramal 123 |
8:39 PM
Comments:
Terça-feira, Junho 08, 2004
antes de ler esse texto, leia a primeira parte no blog da Hilda
Desde tempos imemoriais, um homem procura uma mulher. Alguns detalhes tolos fazem, desfazem e refazem relações. Seu amor pode estar tossindo. E, mesmo assim, você pode sentir que nunca escutou um som tão bonito. Só superado pelas palavras que se seguem, inevitavelmente um "desculpe-me". Mas poderia ser qualquer palavra. Menos "adeus".
Assim estava Noêmia, vestida de vermelho. Dançávamos juntos. Qualquer música. Beatles, Queen, Little Richard e até bandas cujos nomes eu adoraria conhecer. Não escolhíamos os passos. Nem os olhares de carinho que trocamos. Muito menos o momento da troca de beijos. Eles vinham, como era natural que viessem. Como se conhecêssemos desde antes de nascermos o que deveríamos fazer naquela noite.
A tosse nos fez ir embora. E talvez eu nunca tenha ficado tão feliz ao deixar uma festa em minha cidade justamente no momento em que o mundo inteiro parecia estar ali. Todas as sensações que nos deixam meio bobo, meio sonso de tão contente circulavam mais rápido do que podia correr o sangue no meu corpo. E isso tudo, aquele momento da festa. E eu estava feliz porque estava com Noêmia. O mundo ia embora comigo, todas as sensações me acompanhavam, porque Noêmia ia comigo.
Frio, estava. Talvez nunca fizera tanto frio em Caieiras como na madrugada de 5 para 6 de junho de 2004. Não se via palmo à frente do nariz. Mas um olhar contente, cingido de vermelho, brilhava ainda que estivesses a quilômetros de distância. Esse olhar só podia ser Noêmia: o olhar e a dona dele são inseparáveis, coisa que não acontece com todo mundo. Tem gente que te sorri e você acha "nossa, pessoa boa, o quanto me enganei com ela". Mas assim que os músculos relaxam, a impressão anterior se desfaz. Noêmia não é assim. O olhar faz parte da pessoa. E isso é bom.
Ela é a garota que mesmo com todos os motivos para maldizer a vida consegue tornar a existência uma coisa interessante. Mesmo quando tem de andar mais de 5 quilômetros em uma noite gelada, porque o namorado, este que vos escreve, não sabe dirigir. Me fazia abrir um sorriso por qualquer coisa. E mesmo quando aquelas perguntas de criança, do tipo "já está chegando?", continham uma ironia ácida e doce, como suco de laranja. Saboroso, inevitável, irresistível. Passo por passo, a sensação de frio passava. Portão de casa aberto, é só entrar. Um chocolate quente. Carinho, beijos e ternura. E a vida inteira pareceu tão simples quanto atravessar as ruas nevoadas de Caieiras.
escrito por Emergência Ramal 123 |
7:31 PM
Comments:
Terça-feira, Junho 01, 2004
Não parem as máquinas!
Hoje este imbecil foi comprar passes. No bendito instante em que chegou a minha vez, o sistema caiu. Resultado, 1 real e 70 doados aos cofres de uma empresa de ônibus qualquer. Passada essa tragédia, vim conversando com o vidro do ônibus, de olhos fechados, sobre a necessidade urgente de um decreto que proíba as maquinas de darem pau. Pode ser uma medida provisória. Tenho certeza que o Sarney não vai fazer conchavo, a esquerda do PT não vai reclamar, a oposição achará construtivo e o Lula não vai fazer nenhuma besteira, como expulsar os computadores do Brasil.
Imagine o fim das máquinas. Não haverá meios de se comunicar com os amigos, visto que o e-mail vem substituindo as broncas, os beijos e os abraços. Com muito mais rapidez, claro. Trabalhar como jornalista será um suplício medieval, visto que as reportagens não mais brotarão do Google, e os jornais terão de preencher as páginas como faziam na ditadura, com poemas de Camões. Os elogios de auto-ajuda do Orkut, que nos impedem todos de cometer suicídio, sumidos, terão um efeito trágico sobre a alegria de viver de milhões de seres que passam a maior parte do seu dia defronte a tela branca. E será o maior retrocesso da história dos tímidos, que não mais poderemos mandar flores eletrônicas. Quer coisa melhor do que levar um fora sem o olhar de desprezo constrangido do ser que lhe comete esta violência?
Por isso, não parem as máquinas, seja lá você quem for. Porque eu adoro escrever no orkut sem ter a mínima idéia de quem vai ler aquilo. Questão de identidade, sabe? Os blogs são excelentes lugares para manifestar uma dissimulada pretensão literária, principalmente de pessoas que, como eu, não tem o menor talento para escrever. Vaidade? Não, carência mesmo. Os computadores são os melhores psicólogos que a nossa estupidez já inventou.
escrito por Emergência Ramal 123 |
8:14 PM
Comments:
Sexta-feira, Maio 28, 2004
A volta dos textos longos
Jonathan Hamilton costumava passar as tardes de sexta-feira no lago em frente a sua casa. Era um lago grande, nem raso nem fundo, cheio de patos amarelos, outros brancos. Jonathan sentava-se na grama verde. Havia um formigueiro lá perto. Mas já não causava medo, visto que extinto. O sol do final da tarde batia forte na cara de Jonathan. Quase o cegava aquela luz de tom alaranjado.
- Boa hora para tomar uma cerveja, pensava o rapazinho de 13 anos.
Enquanto pensava na cerveja que beberia, Jonathan Hamilton esquecia a cama quebrada no quarto, o chuveiro miserável, a comida gordurosa da empregada. O cérebro, ocupado, só tinha espaço para gibis japoneses e alguns jogos de computador que não saiam de sua cabeça.
Durante o inverno, Jonathan Hamilton descobriu que poderia se proteger usando um casaco. Ele nunca usara blusa, porque nunca fizera frio. No inverno de 1876, o lago congelou. Os meteriologistas diziam que uma massa de ar polar havia invadido a região norte, trazendo mudanças climáticas inesperadas para um vilarejo de 20 mil habitantes, acostumado com uma temperatura média de 20º no inverno.
Mas enquanto Jonathan Hamilton estava sentado, o inverno era só memória. Seus pais haviam lhe encapotado com blusas diversas. Ele tinha 4, 5 anos, não se lembra bem.
Enquanto escrevia estas linhas, Jonathan Hamilton tinha aproximadamente 32 anos, era executivo do Rabo Bank, da Holanda e queria guardar seu primeiro milhão de dólares. Seria possível que no futuro quisesse casar e ter filhos. Quem sabe, os dois. Ia trocar de carro. E de casa. Os pais estavam bem, a mãe acabara de completar 70 anos. O pai, gostava de veleiros. E estava na Escócia, comprando barcos. Nunca mais comera bifes engordurados. Nem Jonathan nem o pai, que começara a vida como caminhoneiro. Só transportava sapatos e outras bobagens.
Um dia Jonathan resolveu sumir. Tomou o chá da tarde na mesa de operações de câmbio, enquanto negociava fatores de operações financeiras na Suiça.
Acabou o chá, pegou o paletó, limpou a mesa, colocou debaixo do braço as agendas, os rascunhos e a foto do cachorro. Não deu tchau para ninguém. Só um sinal de positivo para o velho McKinley, responsável pelo Sudesta Asiático e Mercados Emergentes. Não jogou nada fora.
Jonathan queria ser o novo Kerouac. Mas, por um motivo besta, havia esquecido que na estrada não há brioches.
escrito por Emergência Ramal 123 |
7:55 PM
Comments:
Terça-feira, Maio 25, 2004
Foram poucas as horas que me tomou "Tempo de migrar para o norte", de Tayeb Salih. Uma hora por dia, eu acho, em uma semana. A capa e o título do livro me chamaram a atenção. Nunca tinha ouvido falar do autor, e o Sudão me parecia um lugar tão distante e desconhecido como Papua Nova Guiné ou o Triângulo das Bermudas. Continuo sem saber nada do Sudão. Mas do autor, sei que escreveu um dos livros mais densos que já li, que foi chefe da seção de África da BBC em Londres e que tem um gosto todo especial por esse mundo em que não sabemos se estamos à beira da revolução ou tomando chopp na calçada. É considerado um dos livros árabes mais importantes do século XX. E cria um incômodo danado na gente. Desses de saber que a personagem principal provocou o suicídio de quatro mulheres, assassinou uma e foi condenado a pena simbólica. Foi quase absolvido. Este é Mustafá Said, de quem todo mundo conta uma hisrória de sucesso e do qual só se sabe que foi o mais genial dos sudaneses a aportar na Inglaterra. No anonimato, cumpriu pena, casou, virou camponês. Antes de morrer afogado no Nilo, não se sabe se por descuido ou por vontade, conta à apenas uma pessoa a sua história. Deixa entrever que entre o canalha e o resto da humanidade há muito menos do uma mera distinção moral.
escrito por Emergência Ramal 123 |
7:28 PM
Comments:
Quinta-feira, Maio 20, 2004
- Se oriente, rapaz!
Quinze minutos de espera. 15h30. Horário de Brasília. Tempo nublado, frio. Uma cara amarrotada diz que de nada valeram as 3 horas em que ficamos aguardando a saída de Jorge McKinsson, hospedado no Hotel Mohadesh, na esquina da Rua Oliveira Lima com a Rua Doutor Torres Homem.
Jorge McKinsson é o mais conhecido produtor de dentes de ouro do mundo, mas ele mesmo não se serve dos ornamentos que produz. Homem alto, herdeiro de uma família de intelectuais ingleses emigrados para o Brasil em 1912, usa escovas de dente de fibra de babaçu, apenas para dentes fortes. E brancos. Não come nada com açúcar. Nem pão, cujo amido vira glicose. Para fortalecer a dentição, mastiga ossos.
McKinsson se tornou o principal produtor de dentes de ouro com uma estratégia pensada ao longo de 50 anos. Sua mãe era psicóloga. O pai era historiador. Observava nas ruas pelos arredores da Universidade Federal de Pernambuco, no Recife, o emaranhado de seres vivos que usavam dentes de ouro. Todos pobres, jogados nas margens do Rio Capiberibe. E se perguntava por que no Brasil os ricos não usavam dentes de ouro. Assim, passou a tentar convencer a mãe o pai a usarem dentes de ouro.
Foram necessários 50 anos para que a estratégia desse resultado. Aos 85 anos, os pais de McKinsson valem se de uma dentadura de 18 quilates extraída das minas do Sudão. O Sudão é um bom produtor de dentaduras de ouro porque a salinidade do ar e das minas é semelhante a da boca humana, o que garante a durabilidade do produto.
Hoje, McKinsson é dono de 98,6% do mercado mundial de dentes de ouro (ranking da ADBCP), e seus principais clientes estão em países como Dinamarca, EUA, Chile, Argentina, Suécia e Noruega.
- Dente de sabre não é o futuro
Esta foi a única frase de McKinsson concedida à imprensa em todos estes anos. McKinsson nunca saiu do Recife. Alguns afirmam que, como Kant, se prepara para lançar uma obra de grande impacto n filosofia ocidental. Mas não pode se valer do cargo de professor universitário para tanto.
escrito por Emergência Ramal 123 |
8:13 PM
Comments:
Sexta-feira, Maio 14, 2004
95% não usam black-tie
Já foi um bom negócio ter um exército revolucionário, tanto à esquerda quanto à direita. Fernando Vives, general aposentado, ex-comandante do Deops no Governo Vargas, abateu todos os colegas do pré-primário tão logo a Guerra Fria estourou em Jundiaí. Fez isso ao atrair os fã de Gloria Gaynor da cidade. Isolados da sociedade, foram preza fácil para as maquinações de Vives. Já Karen Cunsolo, vulgo camarada Paula, fazia parte do exército revolucionário dos Ursinhos Gummy. Em uma fuga espetacular, seqüestrou Sidnei Basile e o fez fingir que era motorista da Kombi usada para seu próprio seqüestro.
Os tempos são outros. Na semana passada, o International Institute for Revolucionary Army Studies, de Ohio, divulgou uma projeção assustadora: 95% dos exércitos revolucionários padecem qualquer forma de planejamento estratégico. "Nosso estoque acabou quando tentamos invadir a Faculdade Anchieta", diz Vives, hoje preso num campo de trabalhos forçados em Cracóvia, na Polônia. Ao ficar sem Trakinas, Vives pediu asilo no consulado da Polônia, em Caieiras. O pedido foi aceito. Mas ao chegar ao país, foi preso a mando dos padres locais: Vives havia produzido um panfleto intitulado "A ordem revolucionária requer freiras polacas de biquini", 10 anos antes.
A situação de Karen foi ainda pior. O exército Revolucionários dos Ursinhos Gummy pretendia invadir um formigueiro, roubando-lhes o estoque de folhas acumuladas para o inverno. O objetivo era ter alimento barato para a invasão do Kremlin, onde resgatariam os objetos pessoais de Krushev, ídolo da turma. Karen foi escolhida pelos seus atributos físicos, especialmente o tamanho. Só precisaria de um pouco de rímel, para seduzir o guarda-formiga. O comando revolucionário atrasou o roubo da fábrica da Natura, em Cajamar. O resultado foi um fiasco. Karen tentou, sem rímel, seduzir a formiga. Mas formiga que é formiga não confia em fêmea sem rímel. Presa, hoje Karen presta serviços comunitários no asilo de borboletas de Vila Prudente.
(com agências internacionais)
escrito por Emergência Ramal 123 |
6:17 PM
Comments:
|
 |
|
 |
 |